Desenvolvimento de Linguagem em Crianças com TEA por Meio de Expansão Linguística Estruturada
INTRODUÇÃO
Este trabalho descreve a experiência de CAA com dois irmãos gêmeos, TEA, nível 3 de suporte, que iniciaram a CAA aos oito anos de idade. Ambos apresentam quadro de disartria associada ao TEA: não falavam e não se comunicavam funcionalmente ao início da intervenção. Os dois apresentavam dificuldades de comportamento frequentes, pobre repertório de jogo e nenhum interesse por objetos ou brinquedos, nenhuma intenção comunicativa, não imitavam e não apresentavam reciprocidade social.
A proposta de CAA utilizada neste trabalho resulta de uma trajetória de anos de prática clínica e investigação teórica sobre desenvolvimento da linguagem no TEA. As duas crianças fizeram uso por algum tempo de comunicação alternativa baseada na troca de figuras impressas. Contudo, não houve ganhos substanciais nesse período.
Os autores deste trabalho haviam vivenciado a mesma experiência com inúmeros casos: avanços em habilidades iniciais de comunicação por meio de estratégias de troca de figuras, mas sem aquisição de autonomia comunicativa. A experiência com estratégias chamadas “robustas”, mas não desenvolvidas para TEA, também gerava frustração para casos de crianças com o perfil das descritas neste trabalho: o foco puramente expressivo não permitia aquisição funcional da comunicação. A partir dessa constatação, os autores revisaram a literatura científica e, baseados em sua experiência com centenas de crianças, estruturaram uma proposta que visa o desenvolvimento linguístico, que culmine numa comunicação funcional e autônoma.
As causas dessas dificuldades comunicativas do TEA são, em grande parte, neurobiológicas. Estudos mostram alterações em todas as etapas do processamento auditivo desde o tronco cerebral, com dessincronia nas vias auditivas e alterações estruturais como hipoplasia do complexo olivar superior. Há também anormalidades importantes no córtex auditivo primário (alteração tonotópica que prevê hiper-representação de frequências agudas e faixas altamente sintonizadas), que podem distorcer a percepção sonora e comprometer a discriminação auditiva. Além disso, pesquisas apontam para uma menor conectividade entre córtex auditivo primário e área de Wernicke, regiões cerebrais responsáveis pela percepção auditiva, compreensão e pelo acesso ao significado das palavras, dificultando a aquisição do vocabulário. Todas essas alterações auditivas comprometem a aquisição de linguagem no TEA e demonstram que as dificuldades de linguagem no autismo são de ordem receptiva e não apenas de expressão.
Crianças com TEA frequentemente também apresentam dificuldades motoras globais significativas, incluindo déficits na imitação, coordenação e equilíbrio, e apresentam padrões motores alterados que se relacionam diretamente ao desenvolvimento social e linguístico. Estudos demonstram que as dificuldades sensório-motoras estão fortemente associadas a atrasos na linguagem receptiva e expressiva.
As estruturas cerebrais envolvidas na linguagem e na motricidade se sobrepõem. Gânglios da base e cerebelo, por exemplo, têm papel importante tanto no controle motor quanto na linguagem e nas interações sociais. Anormalidades nessas regiões estão associadas a prejuízos motores, práxicos, sociais e comunicativos em crianças com TEA.
As crianças deste estudo foram diagnosticadas com dispraxia global. O conceito de práxis — a capacidade de planejar e executar ações intencionais — é central para compreender as dificuldades dessas crianças. Essas crianças são frequentemente vistas como desmotivadas ou dependentes, mas na verdade enfrentam barreiras neurológicas que dificultam a transformação de estímulos em ações intencionais. Na comunicação, isso se manifesta como dificuldade de iniciar ou manter trocas comunicativas.
Na dispraxia não há benefício com estratégias de “modelagem”: requerem ensino estruturado, repetitivo, com ajuda física e treinamento específico para generalização. Também enfrentam barreiras na associação entre estímulos visuais e seus significados, especialmente quando são apresentados múltiplos estímulos simultaneamente.
Portanto, o ensino da linguagem para esses casos precisa considerar as dificuldades sensório-motoras de cada criança. Estratégias bem-sucedidas para o ensino de CAA devem evitar a sobrecarga sensorial e garantir suporte físico e ambiental adequado para a aprendizagem simbólica e funcional.
OBJETIVO
O objetivo deste trabalho é relatar a experiência clínica com a implementação de uma abordagem de expansão linguística progressiva em CAA com dois meninos autistas nível 3 de suporte, atualmente com 10 anos de idade, com foco no desenvolvimento de uma comunicação funcional.
Descrição do caso e das ações desenvolvidas
Os casos envolvem dois meninos, sem comunicação desde os primeiros anos de vida. Ambos com dispraxia global (dificuldade de planejamento motor, baixo desempenho em imitação, hipersensibilidade sensorial e prejuízo na associação entre estímulos visuais e significados). Até oito anos, utilizavam exclusivamente treinos comportamentais para se comunicarem, às vezes com suporte visual impresso, com episódios frequentes de frustração e desregulação emocional por falhas de compreensão.
A intervenção iniciou-se com uma avaliação funcional da comunicação e dos aspectos motores de fala, em parceria com psicoterapia comportamental, fisioterapia e terapia ocupacional. Foram definidos objetivos individualizados, respeitando os perfis sensoriais e motores. O sistema de CAA foi escolhido com base no grau de apoio necessário, optando-se por pranchas digitais, para expansão linguística progressiva.
A intervenção incluiu o ensino estruturado organizado em doze etapas que envolvem expansão lexical, pragmática e sintática, de forma a ampliar funções comunicativas de nomeação, informativa, questionamentos, interação, narração e argumentação, com complexidade sintática e lexical progressivas.
As sessões foram conduzidas por fonoaudióloga, três vezes por semana, sendo uma em conjunto de fisioterapia e fonoaudiologia.
RESULTADOS
Dois anos de acompanhamento resultaram em evolução significativa. O paciente A, menos dispraxico, utiliza CAA espontaneamente para pedir ou nomear objetos e ações, recusar, comentar e expressar preferências. Faz frases de até quatro elementos sem suporte. O paciente B, mais dispraxico, utiliza CAA de forma espontânea para pedir objetos e ações, com maior demanda para treinos visomotores para aquisição da CAA e faz frases de até dois elementos. A generalização do paciente B é mais difícil. A ideação neste último caso também é mais comprometida, sendo as iniciativas espontâneas de comunicação menos frequentes do que no caso do paciente A.
As dificuldades motoras e práxicas, embora ainda presentes, foram amenizadas. Fato observado pelo aumento do interesse por brinquedos e outros objetos e aquisição de repertório de jogo simbólico (paciente A). A compreensão auditiva melhorou. O paciente B ainda depende mais substancialmente do recurso visual para compreensão em contexto mais complexo. O paciente A passou a apresentar vocalizações funcionais associadas aos símbolos apontados, demonstrando início de produção oral intencional e funcional.
A frequência de comportamentos disruptivos caiu drasticamente, sendo substituída por tentativas de comunicação. A família relatou melhora na qualidade da interação cotidiana, com aumento da autonomia e da confiança dos pacientes. Observou-se maior interesse social. Ambos passaram a buscar adultos mais frequentemente para compartilhar informações por meio da CAA, revelando não apenas aprendizado instrumental, mas também avanço nas dimensões pragmáticas da linguagem.
CONCLUSÃO
Estes casos demonstram que pessoas com TEA nível 3 podem alcançar uma comunicação funcional significativa por meio da CAA, se a intervenção respeita seus perfis sensorio-motores e se for estruturada, repetitiva e interdisciplinar. Também evidenciam que o prognóstico de comunicação está associado aos aspectos sensório-motores, (conforme a literatura), já que o desempenho das duas crianças é diferente, apesar de receberem o mesmo tratamento.
A CAA não deve ser provisória, mas via legítima de desenvolvimento linguístico. A intervenção mostrou eficácia para estes perfis, diferenciando-se de métodos baseados na exposição ou por modelagem.
Profissionais devem compreender que falhas comunicativas nem sempre são falta de interesse ou capacidade, mas barreiras práxicas, superadas com raciocínio clínico mais preciso. Este relato contribui para reforçar a importância de práticas clínicas que consideram a neurobiologia do desenvolvimento da linguagem no TEA.
Referencia:
BELUSI, Edinizis; LIMA, Aveliny Mantovan; COSTA, Mariana de Oliveira. Desenvolvimento de Linguagem em Crianças com TEA por Meio de Expansão Linguística Estruturada. In: ANAIS DO 10° CONGRESSO BRASILEIRO DE COMUNICAçãO AUMENTATIVA E ALTERNATIVA DA ISAAC-BRASIL, 2025, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos, Galoá, 2025. Disponível em: https://proceedings.science/isaacbrasil-2025/trabalhos/desenvolvimento-de-linguagem-em-criancas-com-tea-por-meio-de-expansao-linguistic?lang=pt-br