Proposta de avaliação do desenvolvimento de linguagem no uso de comunicação alternativa para crianças com autismo

Trabalho publicado no Congresso Internacional de Neurociências e Aprendizagem e Premiado na Categoria de Inovação Científica:

PROPOSTA DE AVALIAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO DE LINGUAGEM NO USO DE COMUNICAÇÃO ALTERNATIVA PARA CRIANÇAS COM AUTISMO

 

Edinizis Belusi[1]

Aveliny Mantovan Lima[2]

REFERENCIAR COMO: BELUSI, Edinizis; LIMA, Aveliny Mantovan. Proposta de avaliação do desenvolvimento de linguagem no uso de comunicação alternativa para crianças com autismo. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE NEUROCIÊNCIAS E APRENDIZAGEM, 2024. Anais do Congresso Internacional de Neurociências e Aprendizagem. set. 2024.

 

Resumo

 

Este artigo apresenta um protocolo de avaliação de linguagem voltado para comunicação alternativa em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A principal premissa é a priorização da via visual no processo de comunicação, uma vez que esses indivíduos frequentemente apresentam dificuldades no processamento auditivo. O protocolo foi elaborado com base em marcos do desenvolvimento típico e abrange aspectos fundamentais, como o desenvolvimento pragmático, morfossintático, narrativo e semântico-lexical. O objetivo do protocolo é fornecer uma ferramenta objetiva e eficiente para identificar as necessidades comunicativas de cada indivíduo, auxiliando na criação de intervenções personalizadas que respondam às especificidades de cada caso. Dessa forma, espera-se otimizar o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem, permitindo que o indivíduo se expresse de maneira funcional e adaptada ao seu contexto. Ao integrar essas dimensões do desenvolvimento linguístico, o protocolo busca não apenas avaliar, mas também orientar de maneira prática as estratégias de intervenção, promovendo uma comunicação mais eficaz e possibilitando avanços concretos na qualidade de vida dos indivíduos com TEA.

Palavras-chave: Autismo; Desenvolvimento de Linguagem; Comunicação Alternativa.

 

Introdução

O desenvolvimento da linguagem em crianças é um processo complexo e multifacetado que envolve a aquisição de habilidades fonológicas, morfológicas, sintáticas, semânticas, pragmáticas e de discurso. Desde os primeiros meses de vida, os bebês começam a distinguir e a produzir sons, iniciando a jornada fonológica que evolui para a formação de palavras (semântica e léxico) e de frases (sintaxe). Com o desenvolvimento, as crianças começam a entender e aplicar regras gramaticais, ampliam seu vocabulário e desenvolvem a capacidade de formar sentenças complexas e coerentes. A interação social desempenha um papel fundamental nesse processo, proporcionando às crianças a oportunidade de praticar e refinar suas habilidades linguísticas. É por meio da exposição constante à linguagem em diversos contextos que elas aprendem não apenas a comunicar suas necessidades e desejos, mas também a interpretar e responder adequadamente às mensagens de seus interlocutores, construindo assim uma base sólida para a comunicação eficaz e o sucesso acadêmico e social. Contudo, para as crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), esse caminho apresenta-se bem mais tortuoso.

As dificuldades de comunicação apresentam-se na base do TEA. Quando olhamos, por exemplo, para a falta de intenção comunicativa nessas crianças – manifestada pelo contato visual limitado, problemas na iniciação de conversas e atividades – ou para as dificuldades em habilidades conversacionais – expressas pela dificuldade para manutenção de um diálogo, problemas em pedir para o outro repetir ou para explicar melhor, déficits na compreensão e na reação a respostas verbais ou não-verbais, não adequação ao contexto comunicativo -, percebemos dificuldades que antecedem, ou melhor, subjazem às habilidades de fala e aos outros subníveis de linguagem (Inácio, 2019).

 

Desenvolvimento

É bastante comum a menção às dificuldades dos aspectos pragmáticos (funcionais) da linguagem no TEA. Porém, essa população apresenta prejuízos específicos muito frequentes, para além da pragmática, tais como das habilidades receptivas. O mesmo acontece para as habilidades de expressão. Estas dificuldades podem estar relacionadas com dificuldades para organizar os constituintes morfossintáticos ao nível da frase, dificuldades em aprender palavras novas, vocabulário limitado e dificuldades em compreender expressões idiomáticas (Manolitsi, Botting, 2011). 

Uma especificidade relacionada aos aspectos receptivos da comunicação, que chama a atenção no acompanhamento fonoaudiológico de crianças com TEA, é a dificuldade na compreensão puramente auditiva da linguagem. Quando a criança possui desenvolvimento típico, percebe-se uma persistente discrepância entre o desempenho receptivo (que é sempre muito melhor) e o expressivo (que parece não acompanhar), diz-se estar diante de um atraso normativo de produção-compreensão. Isso acontece porque os indivíduos típicos têm mais facilidade de compreender e internalizar uma forma linguística por via puramente auditiva – seja uma estrutura sintática (gramatical) ou um novo conceito de item lexical (vocabulário) -, do que fazer uso delas. Incorporar essas estruturas é fundamental para que as crianças possam usá-las habilmente na sua própria produção e desse modo, a expressão fica sempre aquém da compreensão. O mesmo acontece para os indivíduos que estão aprendendo uma segunda língua: sempre é mais fácil compreender do que expressar. As crianças com desenvolvimento típico, assim como os adultos com desenvolvimento típico, produzem menos palavras do que conseguem compreender e compreendem mais palavras do que conseguem produzir com sucesso. Isso, contudo, não costuma acontecer nos indivíduos com TEA: a compreensão auditiva é bastante comprometida e essa discrepância natural é mitigada, e, de acordo com alguns autores, é tão ou mais comprometida que a expressão. Alguns pesquisadores afirmam que o atraso normativo de produção-compreensão nem sequer existe no desenvolvimento da linguagem autista (Gernsbacher et al. 2016). Outros autores observaram que crianças com autismo demoram mais para compreender em relação a outros grupos, porém, melhoram essa compreensão quando adquirem mais vocabulário e quando pontuam mais em índices de escalas sociais e motoras (Goodwin et al., 2012).

No autismo, uma das características centrais é uma dificuldade na percepção e modulação das informações sensoriais, o que provoca sérios desafios na autorregulação comportamental e no processamento auditivo. Como resultado, muitos autistas são frequentemente confundidos com indivíduos surdos. A literatura a respeito do processamento auditivo no TEA aponta falhas já nos estágios iniciais do caminho do som, ainda no tronco cerebral.  Há evidências de aumento no tempo de latência das ondas III e V, bem como nos valores interpicos em exames de potenciais evocados auditivos do tronco encefálico (PEATE) em indivíduos com TEA. Esses achados sugerem uma dessincronia e imaturidade nas vias auditivas inferiores (Ramezani et al. 2023). O córtex auditivo primário – onde haveria, de fato, a detecção sonora, pode apresentar uma organização tonotópica alterada no TEA. Estudos com ratos com autismo induzido por ácido valproico na gestação analisaram a representação tonotópica auditiva nesses animais. Os pesquisadores observaram que ratos com autismo induzido apresentaram um córtex auditivo primário com uma representação excessiva de altas frequências, campos receptivos altamente sintonizados e limiares de intensidade mais elevados em comparação com os ratos controle sem autismo (Cheng et al. 2022).

Para haver a compreensão auditiva, a informação precisa sair do córtex primário e atingir áreas secundárias e terciárias, especialmente a área de Wernicke (evocação semântica). Wilson et al. (2022) investigaram a conectividade funcional do córtex auditivo primário, comparando 68 pessoas com TEA a 77 indivíduos sem TEA. A hipótese dos autores era que, no TEA, o córtex auditivo primário apresentaria conectividade disfuncional, resultando em disfunções na integração sensorial. Eles analisaram bancos de dados de ressonância magnética funcional e perceberam que os córtices auditivos primários em pessoas com TEA mostraram menor conectividade com quatro áreas principais: (1) córtex occipital medial (córtex intracalcarino/cuneal direito), (2) córtex motor primário (giro pré-central direito), (3) córtex insular (opérculo parietal direito), e (4) área de Wernicke (giro supramarginal esquerdo), em comparação com os indivíduos típicos. A conectividade funcional reduzida nessas regiões pode, portanto, contribuir para a integração sensorial desregulada associada ao TEA, e também pode ajudar a explicar por que crianças com TEA têm maior dificuldade na aquisição e acesso lexical.

As dificuldades de linguagem no TEA não se restringem à comunicação receptiva, contudo. A internalização da normativa gramatical (morfossintaxe) parece não ser uma aquisição natural como é no desenvolvimento típico. Os resultados de um estudo sobre orações relativas indicam que participantes com TEA têm desempenho significativamente inferior aos controles pareados por idade. Esse estudo aponta dificuldades gramaticais sutis que continuam a afetar adultos com TEA e QI na faixa normal, comparados com indivíduos sem TEA da mesma idade (Durrleman et al. 2014). Desse modo, a preocupação com as aquisições sintáticas da criança também deve permear todo o planejamento terapêutico, em todas as etapas do desenvolvimento.

Diante deste contexto desfavorável à aquisição de linguagem por via auditiva, a CAA tem se mostrado uma proposta eficaz para o ensino de linguagem para crianças com TEA em fase de desenvolvimento (Pereira et a. 2020). A CAA parece ser uma estratégia vantajosa de organização linguística tanto para crianças não oralizadas como para as oralizadas com comorbidades motoras globais e de fala.

Apesar de diversas evidências apontarem para os benefícios relacionados ao desenvolvimento da linguagem como um todo, a maioria dos protocolos permanece focado em alguns comportamentos comunicativos específicos como “fazer solicitações” (Iacono et al. 2016). Além disso, apesar da maioria dos artigos evidenciarem melhoras na comunicação de crianças com TEA, eles não apontam protocolos de avaliação de linguagem para quantificar isso. Os trabalham se limitam a contabilizar comportamentos comunicativos ou descrever protocolos que mapeiam características do transtorno (Trembath et al. 2009).

Diante do exposto, observa-se a necessidade de um protocolo de mapeamento do nível de desenvolvimento de linguagem da criança com TEA, com vistas à recepção e expressão da linguagem que priorize a via visual, para fins de comunicação alternativa. Para a elaboração deste protocolo, fizemos uma varredura na literatura a respeito dos marcadores de desenvolvimento de cada um dos subníveis da linguagem, exceto da fonologia, já que se trata de um protocolo para CAA.

Os marcadores de desenvolvimento pragmático e desenvolvimento narrativo foram adaptados de Zorzi e Hage (2004) e Perroni (1992), respectivamente. Foi dado enfoque nas habilidades mais generalistas observadas no desenvolvimento típico e as apresentamos desta forma:

 

Figura 1: Proposta de avaliação funcional (pragmática) para o protocolo de CAA no TEA

Figura1

Figura2

Tabela3

Fonte: figura elaborada pelas autoras.

 

         Os marcadores sintáticos foram extraídos de Major (1994), Del Río e Vilaseca (1997), Hage (2000) e Meneses (2017) e apresentados dessa maneira:

Figura 2: Proposta de avaliação gramatical (morfossintática) para o protocolo de CAA no TEA

Figura2

Fonte: figura elaborada pelas autoras.

 

         A avaliação de repertório lexical apoiou-se nos dados de Befi-Lopes (2000), mas a prova foi adaptada para uma avaliação de reconhecimento auditivo. As estimativas previstas no teste para nomeação, são utilizadas como norteadoras. Pesquisas futuras devem buscar a sua validação.

* Este protocolo foi modificado e atualizado nas últimas publicações do PELP-TEA

 

Considerações finais

         O desenvolvimento da linguagem das crianças com TEA aponta para limitações importantes, especialmente, em relação às habilidades de compreensão e expressão quando o input e output das informações acontecem preferencialmente em via auditiva.  Quando as estratégias fonoaudiológicas para a organização linguística são ofertadas visualmente, pela CAA, benefícios são observados. Para que os recursos de CAA sejam otimizados para as crianças com TEA, faz-se necessário um protocolo que avalie as habilidades receptivas e expressivas de linguagem, de modo que priorize a veiculação visual das informações. A presente proposta pretende sanar essa lacuna. Estudos futuros devem buscar a sua validação.

 

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[1] Edinizis Belusi. Fonoaudióloga pela USP, mestre em linguística pela UnB. Proprietária da empresa Tato Desenvolvimento – e.belusi@gmail.com

[2] Aveliny Mantovan Lima. Fonoaudióloga pela USP. Mestre em bioengenharia pela USP. Doutora em Linguística pela Unicamp. Professora Associada na Universidade de Brasília – UnB – aveliny@unb.br

Referência:

BELUSI, Edinizis; LIMA, Aveliny Mantovan. Proposta de avaliação do desenvolvimento de linguagem no uso de comunicação alternativa para crianças com autismo. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE NEUROCIÊNCIAS E APRENDIZAGEM, 2024. Anais do Congresso Internacional de Neurociências e Aprendizagem. set. 2024.