Programa de expansão linguística progressiva para o tea: Uma proposta de CAA a partir de um raciocínio neurobiológico

 

Anais

ISBN 978-65-86760-17-0

Trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia – 2025

TEMAS ORAIS / COMUNICAÇÕES BREVES

CÓDIGO 8884

TÍTULO: PROGRAMA DE EXPANSÃO LINGUÍSTICA PROGRESSIVA PARA O TEA: UMA PROPOSTA DE CAA A PARTIR DE UM RACIOCÍNIO NEUROBIOLÓGICO

AUTORES EDINIZIS BELUSI

ÁREA Linguagem (LGG)

REFERENCIAR COMO: BELUSI, Edinizis. Programa de expansão linguística progressiva para o TEA: uma proposta de CAA a partir de um raciocínio neurobiológico. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FONOAUDIOLOGIA, 2025. Anais do Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia. 2025. ISBN 978-65-86760-17-0.

RESUMO SIMPLES

Desenvolvimento da Linguagem no Transtorno do Espectro Autista: Bases Neurofuncionais e Implicações para Intervenção

A proposta metodológica aqui apresentada resulta de mais de uma década de investigação teórica e prática voltada à promoção da linguagem em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). As estratégias inicialmente adotadas, baseadas em sistemas de comunicação alternativa por meio de troca de figuras impressas, demonstraram eficácia parcial na ampliação de comportamentos comunicativos funcionais, mas não foram suficientes para a promoção da autonomia comunicativa nem para a emergência de linguagem complexa e contextualizada. Mesmo com a incorporação de recursos de alta tecnologia, identificou-se uma lacuna metodológica no que se refere à organização linguística e ao foco no desenvolvimento dos componentes estruturais da linguagem.

Observou-se que métodos alternativos disponíveis apresentavam bons resultados em condições nas quais a dificuldade comunicativa era predominantemente expressiva, como nos quadros de apraxia de fala e paralisia cerebral. Contudo, em indivíduos com TEA com comprometimento sensorial severo e transtornos de processamento auditivo, a adesão a tais metodologias era frequentemente inviável, resultando em frustrações e limitado progresso linguístico. A constatação da ineficácia dessas abordagens para um subgrupo significativo de indivíduos com TEA impulsionou uma revisão crítica da literatura científica e a sistematização de dados clínicos acumulados com centenas de crianças ao longo dos últimos anos.

A comunicação, enquanto processo intersubjetivo, é mediada pela linguagem e expressa-se pela fala, sendo esta última a modalidade mais eficiente de expressão. No TEA, as dificuldades comunicativas emergem precocemente e manifestam-se em distintos níveis: ausência de intencionalidade comunicativa, falhas na reciprocidade verbal, prejuízos na manutenção de turnos conversacionais e inadequação pragmática. Essas manifestações frequentemente antecedem déficits linguísticos propriamente ditos. Além das dificuldades pragmáticas, são comuns prejuízos receptivos e expressivos nos domínios semântico e morfossintático, incluindo limitação lexical, dificuldades em aquisição de novas palavras, uso restrito de estruturas gramaticais e compreensão comprometida de expressões figuradas.

Um aspecto distintivo do perfil linguístico no TEA refere-se à atenuação, ou mesmo ausência, da discrepância normativa entre compreensão e expressão linguística, fenômeno bem documentado no desenvolvimento típico e na aquisição de segunda língua. Em vez de compreender mais do que são capazes de produzir, muitos indivíduos com TEA demonstram equivalência entre produção e compreensão ou mesmo dominância da produção, frequentemente ecolálica, sobre a compreensão semântica. Essa inversão compromete a aquisição incidental da linguagem e dificulta a internalização de estruturas linguísticas pela via auditiva, desafiando a eficácia de abordagens convencionais centradas exclusivamente na fala como via de entrada linguística.

A neurobiologia do TEA oferece importantes subsídios para a compreensão dessas dificuldades. Alterações funcionais e estruturais no tronco encefálico, especialmente nas vias auditivas inferiores (núcleo coclear, complexo olivar superior, colículo inferior), têm sido identificadas por meio de estudos com potenciais evocados auditivos e investigações histopatológicas. Evidências de dessincronia neural e maturação atípica nessas estruturas indicam que a codificação temporal e espectral dos estímulos auditivos se encontra prejudicada desde os primeiros estágios do processamento sensorial. Essas alterações repercutem no funcionamento do córtex auditivo primário, onde se observam padrões de hiperrepresentação de altas frequências e organização tonotópica atípica.

Além disso, estudos de neuroimagem funcional sugerem conectividade reduzida entre o córtex auditivo e áreas de integração linguística e sensorial, como a área de Wernicke, o córtex pré-central e o córtex insular. Tal desconexão funcional compromete o fluxo eficiente de informações auditivas para regiões envolvidas na atribuição de significado e na formulação de respostas linguísticas. Essa condição neurológica restringe o acesso lexical e dificulta a construção de representações semânticas estáveis, repercutindo negativamente na compreensão e na produção de linguagem.

Outro ponto relevante refere-se à lateralização hemisférica das funções linguísticas. Enquanto indivíduos neurotípicos tendem a apresentar dominância hemisférica esquerda para a linguagem, numerosos estudos apontam para padrões de lateralidade atípica no TEA, incluindo ativação predominante do hemisfério direito ou distribuição bilateral simétrica. Essa reorganização funcional, interpretada como compensatória, não parece conferir a mesma eficiência no processamento linguístico. Estudos com potenciais evocados e fMRI evidenciam menor ativação da área de Wernicke e redução na conectividade intra-hemisférica esquerda em indivíduos com TEA, o que se correlaciona com menor desempenho verbal e maiores dificuldades semântico-pragmáticas.

Essas evidências reforçam a hipótese de que a via auditiva tradicional para aquisição de linguagem não é eficiente para grande parte dos indivíduos com TEA. Em contrapartida, abordagens que privilegiam rotas multissensoriais, particularmente as visuais, mostram-se mais promissoras. Contudo, a eficácia dessas abordagens depende da estruturação explícita e sistemática dos conteúdos linguísticos, dado que o aprendizado incidental frequentemente falha nesse grupo.

Além dos aspectos auditivo-linguísticos, destacam-se evidências robustas de correlações significativas entre habilidades motoras e desenvolvimento linguístico no TEA. Estudos longitudinais indicam que indicadores motores precoces, como a idade de aquisição da marcha e o desempenho em tarefas de controle de objetos, predizem o curso do desenvolvimento linguístico. As dificuldades motoras observadas em crianças com TEA — que incluem desde déficits de coordenação grossa até prejuízos práxicos — associam-se a alterações em estruturas subcorticais como os gânglios da base (núcleo caudado, putâmen, globo pálido), e ao cerebelo, tradicionalmente implicado em funções motoras, mas recentemente reconhecido como parte de um circuito mais amplo que envolve cognição, linguagem e regulação comportamental.

Essas estruturas participam da integração motora e comunicativa e sua disfunção compromete não apenas a articulação da fala, mas também a organização da linguagem e a eficácia comunicativa. Dados de neuroimagem indicam que anomalias nos circuitos fronto-cortico-cerebelares, presentes tanto no TEA quanto em outras condições do neurodesenvolvimento, impactam diretamente funções executivas, memória de trabalho, atenção e planejamento linguístico.

Em suma, a compreensão do desenvolvimento linguístico no TEA exige uma abordagem multidimensional, que integre os domínios neurobiológico, sensório-motor e funcional da linguagem. A proposta aqui sistematizada baseia-se nessas evidências para delinear estratégias terapêuticas que respeitem as especificidades neurológicas do TEA e favoreçam a emergência de linguagem compreensiva, contextualizada e funcional. Trata-se de uma proposta que reconhece a necessidade de ensinar linguagem — e não apenas fala — por meio de rotas adaptadas às capacidades perceptivas, cognitivas e motoras de cada indivíduo. Esta compreensão, respaldada pela literatura científica recente e por evidências clínicas consistentes, constitui o fundamento teórico e prático deste trabalho.

REFERÊNCIAS

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disponível em: https://inscricoes.lp.sbfa.org.br/anais/anais