Comunicação Alternativa no Autismo: limites dos modelos tradicionais e uma perspectiva baseada no desenvolvimento

CAA

A comunicação é uma das áreas mais frequentemente afetadas no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estima-se que cerca de 30% das pessoas com autismo não desenvolvem fala funcional ou permanecem minimamente verbais, o que torna necessário o uso de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) para ampliar as possibilidades de expressão e interação social. (Springer)

Nas últimas décadas, diferentes sistemas de CAA foram amplamente difundidos na prática clínica, como PECS, PODD e abordagens baseadas em core vocabulary (como CorePower ou sistemas similares). Esses modelos trouxeram contribuições importantes, mas também apresentam limitações quando analisados à luz do desenvolvimento da linguagem.

Este artigo discute essas limitações e apresenta princípios de uma abordagem alternativa baseada no desenvolvimento linguístico — alinhada com a lógica do PELP-TEA (Programa de Expansão Linguística Progressiva para TEA).


Comunicação alternativa no TEA: por que ela é necessária?

A comunicação alternativa inclui estratégias, símbolos, gestos, imagens ou dispositivos eletrônicos usados para complementar ou substituir a fala. (ASHA)

Esses sistemas podem ser:

  • Não assistidos: gestos, sinais, expressões.
  • Assistidos de baixa tecnologia: pranchas de figuras, cartões, livros de comunicação.
  • Alta tecnologia: tablets ou dispositivos geradores de fala.

Para muitas crianças com autismo, a CAA é fundamental porque:

  • permite iniciar interações comunicativas
  • reduz frustração e comportamentos disruptivos
  • favorece o desenvolvimento de linguagem simbólica

Estudos mostram que, após a introdução de CAA com treinamento para cuidadores, crianças minimamente verbais ampliam suas funções comunicativas, passando de simples pedidos para formas mais diversas de interação e informação. (ScienceDirect)

Apesar desses benefícios, o modo como a comunicação alternativa é ensinada faz grande diferença nos resultados de linguagem.


Três modelos amplamente utilizados de CAA

1. PECS – Picture Exchange Communication System

O PECS (Picture Exchange Communication System) foi criado em 1985 por Andy Bondy e Lori Frost como um método estruturado de ensino em que a criança troca figuras para fazer pedidos. (Wikipedia)

O método ficou conhecido por ensinar rapidamente a iniciação comunicativa, algo que outras abordagens não priorizavam na época.

Limitações observadas

Embora eficaz para iniciar comunicação, o PECS apresenta algumas limitações:

  • forte foco na função de pedir (mando)
  • repertório lexical geralmente centrado em substantivos
  • progressão limitada para conversação ou linguagem narrativa
  • dificuldade para desenvolver estrutura sintática

Em muitos casos, crianças tornam-se eficientes em pedir objetos, mas apresentam dificuldade para comentar, relatar eventos ou expressar estados internos.


2. PODD – Pragmatic Organization Dynamic Display

O PODD é um sistema de organização de vocabulário em pranchas ou dispositivos que permite acesso a palavras organizadas pragmaticamente para diferentes funções comunicativas. (ASHA)

Ele foi desenvolvido para possibilitar comunicação contínua sobre diferentes temas.

Limitações observadas

Apesar de sua sofisticação estrutural, alguns desafios aparecem na prática clínica:

  • grande complexidade cognitiva e motora para usuários iniciantes
  • necessidade de mediação constante do adulto
  • foco maior na navegação de sistemas do que no desenvolvimento linguístico
  • pouca consideração explícita das etapas naturais da aquisição de linguagem

Assim, o sistema pode funcionar bem para usuários com dificuldades exclusivamente expressivas (transtornos motores de fala puros, por exemplo) e mais avançados, mas nem sempre favorece a emergência inicial da linguagem. Quando a dificuldade está na aquisição de linguagem – como no caso do TEA – ele pode falhar.


3. Abordagens baseadas em “core vocabulary”

Sistemas como CorePower e pranchas de “palavras essenciais” partem da ideia de que um pequeno conjunto de palavras de alta frequência compõe grande parte da comunicação diária.

De fato, pesquisas indicam que palavras essenciais representam grande parte do vocabulário expressivo utilizado no cotidiano. (ASHA) No TEA, entretanto, a grande dificuldade está – especialmente – na aquisição do vocabulário

Evidências recentes levantam questões importantes.

Limitações observadas

Uma revisão sistemática mostrou que a base empírica para intervenções focadas exclusivamente em core vocabulary ainda é limitada, com poucos estudos e qualidade metodológica variável. (Springer)

Além disso, estudos de desenvolvimento lexical mostram que:

  • muitas palavras das listas de core vocabulary aparecem apenas após os 2 anos de idade
  • elas não correspondem às primeiras palavras que as crianças APRENDEM (receptivamente) em desenvolvimento típico

Isso sugere que usar exclusivamente essas palavras com comunicadores emergentes pode exigir habilidades linguísticas acima do nível da criança, gerando frustração ou baixa adesão. (Taylor & Francis Online)

Outro problema é que a ênfase excessiva em palavras de alta frequência pode reduzir a motivação comunicativa, já que itens altamente significativos para a criança (brinquedos, pessoas, interesses) ficam fora do sistema inicial.


O problema central: comunicação sem desenvolvimento de linguagem

Apesar das diferenças entre esses modelos, muitos compartilham um mesmo pressuposto implícito:

ensinar um sistema de comunicação não é necessariamente ensinar linguagem.

A linguagem envolve muito mais do que símbolos ou vocabulário. Ela depende de:

  • atenção conjunta
  • intencionalidade comunicativa
  • imitação
  • processamento auditivo
  • planejamento motor da fala
  • representação simbólica

Quando esses pré-requisitos não são considerados, o sistema de CAA pode tornar-se apenas um instrumento funcional de pedidos, sem promover a expansão linguística.


Uma perspectiva baseada no desenvolvimento: princípios do PELP-TEA

O PELP-TEA (Programa de Expansão Linguística Progressiva) parte de um princípio diferente:

a comunicação alternativa deve acompanhar as etapas do desenvolvimento da linguagem, e não substituí-las.

Nesse modelo, a CAA não é apenas um recurso compensatório, mas um instrumento de construção linguística.

Alguns princípios fundamentais incluem:

1. Hierarquia de habilidades comunicativas

Antes da linguagem simbólica, é necessário desenvolver:

  • atenção compartilhada
  • regulação social
  • troca de turnos
  • gestos comunicativos

Essas habilidades estruturam o terreno para o uso significativo de símbolos.


2. Progressão lexical alinhada ao desenvolvimento

Em vez de iniciar com listas fixas de core vocabulary, o vocabulário segue uma progressão semelhante à aquisição típica:

  1. palavras altamente motivadoras (frequentemente substantivos)
  2. verbos funcionais
  3. palavras relacionais
  4. combinações de duas palavras
  5. expansão sintática

Isso respeita o nível cognitivo e linguístico do comunicador emergente.


3. Comunicação multimodal

O PELP-TEA considera que a comunicação emerge da integração de:

  • gestos
  • vocalizações
  • fala
  • símbolos visuais
  • prosódia
  • interação social

A CAA é apenas uma das modalidades dentro desse sistema multimodal.


4. Expansão linguística progressiva

O objetivo final não é apenas comunicar, mas expandir continuamente o repertório linguístico.

Assim, o sistema evolui com a criança:

  • começa simples
  • aumenta complexidade lexical
  • amplia funções comunicativas
  • incorpora estrutura gramatical

Integração entre comunicação e desenvolvimento

As evidências atuais indicam que a CAA pode ser extremamente eficaz quando:

  • é individualizada
  • envolve participação ativa dos cuidadores
  • promove uso espontâneo em contextos naturais (ScienceDirect)

Isso reforça a necessidade de modelos que integrem comunicação, desenvolvimento e interação social, em vez de focar exclusivamente em ferramentas ou sistemas de símbolos.


Conclusão

A comunicação alternativa representa um recurso essencial para muitas pessoas com autismo. Sistemas como PECS, PODD e abordagens baseadas em core vocabulary contribuíram significativamente para ampliar o acesso à comunicação.

Entretanto, esses modelos apresentam limitações quando utilizados como estratégias isoladas ou desvinculadas do desenvolvimento linguístico para os casos de autismo.

Uma abordagem baseada em princípios de desenvolvimento — como proposto no PELP-TEA — busca integrar:

  • comunicação funcional
  • aquisição lexical
  • interação social
  • progressão linguística

Mais do que ensinar a usar um sistema de símbolos, o desafio clínico é ensinar a construir linguagem.