Ciência para Todos: Construindo Pontes entre a Alfabetização Científica e o Estudante Autista
“Ciência para Todos!” Você já deve ter ouvido essa frase. Mas será que ela se concretiza? Muitas vezes, a ciência ainda é produzida em “torres de marfim”, distante da sociedade que a financia. No Brasil, o investimento público em universidades garante, por lei, a indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão. Isso significa que o conhecimento produzido dentro dos muros acadêmicos precisa voltar para a sociedade. Afinal, todo cidadão brasileiro tem o direito de não só consumir, mas de entender o processo científico e participar ativamente dele.
Mas quem são esse TODOS? A resposta é simples: todos incluem, necessariamente, a pessoa autista.
A questão que surge é: como garantir que o autista seja um cidadão ativo na construção do conhecimento científico no Brasil? Eu só consegui vislumbrar uma resposta consistente para essa pergunta depois de 2025, quando conheci o Programa de Expansão Linguística Progressiva para o Transtorno do Espectro Autista (PELP-TEA). O PELP-TEA, ao promover autonomia e criatividade para o autista, oferece exatamente o que a ciência mais precisa para avançar. Agora, o nosso desafio é aproximar o Ensino de Ciências desses princípios.
E é aqui que entra um conceito fundamental: a Alfabetização Científica e Tecnológica (ACT) .
Muito Além do Jaleco Branco: O que é a Alfabetização Científica e Tecnológica (ACT)?
A ACT, amplamente debatida no Ensino de Ciências e tendo como um de seus principais autores o professor Leonir Lorenzetti, não é sobre acumular informações técnicas ou decorar fórmulas. É sobre desenvolver pensamento crítico, capacidade de resolver problemas e tomar decisões informadas. É tornar a ciência uma ferramenta para a vida.
Se a ACT é um direito de todos, nossas práticas em sala de aula precisam garantir que as barreiras ao aprendizado do estudante autista sejam removidas. Só assim ele poderá acessar os conceitos científicos, aplicá-los no seu cotidiano e, de fato, tornar-se um cidadão ativo nos rumos da Ciência Brasileira.
A grande descoberta é que os princípios da ACT e do PELP-TEA se complementam perfeitamente. Vamos ver como?
Inclusão escolar no Ensino de Ciências: ACT, adaptação curricular e acesso real à aprendizagem
4 Pilares para um Ensino de Ciências Inclusivo (ACT + PELP-TEA)
1. Multimodalidade: A Linguagem da Ciência e a construção da Linguagem no Autista
A ACT prega que o conhecimento deve ser construído de forma significativa. O PELP-TEA nos ensina que, para o aluno autista, o acesso a esse conhecimento muitas vezes depende de vias alternativas à auditiva.
A representação multimodal (gráficos, esquemas, modelos 3D, experimentos práticos) é inerente à atividade científica. É assim que os próprios cientistas comunicam ideias complexas entre si. Por que funciona? Porque transforma conceitos abstratos (difíceis de processar apenas ouvindo) em experiências visuais e cinestésicas. E não se engane: isso não é um “facilitador” apenas para autistas, é uma boa prática de ensino de ciências para todos.
2. Tempo de Processamento é Tempo de Investigação Científica
É consenso que o tempo de processamento de muitos autistas é diferente. A ACT valoriza o processo de questionamento, a formulação de hipóteses e a reflexão, e não apenas a resposta imediata. O pensamento científico exige tempo para observação, análise e reflexão. A pressa é inimiga da compreensão profunda.
Na prática: Após fazer uma pergunta ou uma demonstração, crie o hábito de fazer uma pausa. Diga à turma: “Vamos todos processar essa informação por um momento”. Isso valida o tempo cognitivo necessário para muitos alunos e ensina, na prática, uma etapa crucial do processo de construção da ciência: a pausa para a reflexão.
3. Compreensão se Demonstra com Ação, Não com um “Sim”
A ACT propõe uma aprendizagem ativa e significativa. A verdadeira compreensão se demonstra pela aplicação do conhecimento em novas situações e pela capacidade de resolver problemas. Isso casa perfeitamente com a necessidade do PELP-TEA de validar o aprendizado de forma prática e concreta.
Na prática: Substitua a pergunta “Entendeu?” por desafios. Em vez de perguntar se o aluno entendeu como funciona um circuito elétrico, entregue os componentes e peça para ele acender uma lâmpada. O fazer concreto vale mais que qualquer resposta verbal.
4. Antecipação e Estrutura: O Protocolo Científico como Aliado
O PELP-TEA destaca a necessidade de antecipação e um ambiente estruturado para que a aprendizagem ocorra. A ACT encontra uma bela interface nesse ponto, pois a própria Ciência funciona com protocolos, roteiros e métodos. A ciência é, por natureza, previsível e organizada em etapas.
Usar roteiros de experimentos, cronogramas visuais de uma unidade ou checklists de pesquisa não é engessar a aula; é oferecer a previsibilidade que acalma e organiza o pensamento, permitindo que o aluno se sinta seguro para explorar o conhecimento.
Adaptação curricular para estudantes autistas no Ensino de Ciências
PEI e PDI na educação inclusiva: como organizar objetivos, apoios e estratégias pedagógicas
Da Teoria à Prática: A Experiência do PIBID no IFRJ
Talvez você esteja lendo este texto por ter estudantes autistas em sua sala e estar em busca de caminhos práticos. É frustrante ver o potencial e não conseguir alcançá-lo. Pensando nisso, trago a experiência do Programa de Iniciação à Docência (PIBID) do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Pinheiral.
Sob orientação da professora Cristiane Melo, Roberto Silveira e minha (Lucas Guimarães), licenciandos de Ciências Biológicas e Computação foram desafiados a pensar na inclusão de alunos autistas, usando os princípios do PELP-TEA. E o resultado foi surpreendente. Eles entenderam que, antes do conteúdo, vem o bem-estar.
Tecnologia Assistiva de Baixo Custo: O Semáforo do Silêncio e Foco (figura 1)
Figura 1: Projeto de tecnologia assistiva feito pelos licenciandos do PIBID

Fonte: Imagem construída por IA.
Um grupo criou o “Semáforo do Silêncio e Foco” , um Monitor Sensorial Visual (MSV) para lidar com desafios reais da sala de aula:
- Hiperacusia: a hipersensibilidade a sons.
- Dificuldade de foco auditivo: sons irrelevantes chegam ao cérebro com a mesma intensidade da voz do professor.
O MSV transforma os estímulos sonoros da sala em sinalizações visuais claras (como um semáforo). Isso reduz a sobrecarga sensorial auditiva, favorece a autorregulação do aluno e promove autonomia sem exposição. A prioridade foi clara: o bem-estar para depois pensar no conteúdo.
Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA): Ensinando Ciências com Pranchas Personalizadas
Mas os licenciandos também se preocuparam com o conteúdo. Usando o aplicativo Asterics Grid e seguindo os princípios de organização semântica do PELP-TEA, eles criaram pranchas de CAA personalizadas para o currículo de Ciências.
O passo a passo que orientamos foi simples e eficaz:
- Escolher o tema (ex: Energia, Propriedades da Matéria).
- Definir o vocabulário essencial.
- Selecionar símbolos.
- Organizar visualmente (cores, categorias).
- Testar e planejar a mediação.
O resultado foram pranchas incríveis:
Energias Renováveis (8º ano): Os licenciandos quebraram o conteúdo em “pedacinhos” (a organização do PELP) e organizaram os símbolos de forma clara e categorizada.
Figura 2-prancha de CAA com o tema energia

Fonte: Feito com o app Asterics Grid
Propriedades da Matéria (9º ano): Uma escolha consciente do grupo. Eles discutiram: “Átomo é muito abstrato, vamos começar por propriedades da matéria, que são mais concretas e observáveis.
Figura 3: prancha personalizada de propriedades da matéria

Fonte: Feito com o app Asterics Grid
Um detalhe interessante: um grupo fez a prancha na horizontal e outro na vertical. Isso gerou uma rica discussão sobre design centrado no usuário. A conclusão? A flexibilidade é tudo. “Diminuam as informações e acrescentem uma por vez, conforme o estudante for avançando”, orientei. A prancha deve se adaptar ao aluno, e não o contrário.
Inclusão, PEI, PDI e adaptação curricular: um caminho necessário para a educação científica
Integrar os princípios do PELP-TEA com a Alfabetização Científica e Tecnológica não é apenas um caminho possível, é um caminho necessário para uma educação mais justa e eficaz. A experiência do PIBID/IFRJ mostra que, quando futuros professores são formados para olhar para o estudante em sua totalidade, começando pelo bem-estar e usando a criatividade para adaptar a ciência, os resultados são transformadores.
A ciência é para todos. E para que o “todos” seja real, precisamos construir pontes. Essas pranchas de CAA, o semáforo do silêncio, a pausa para o processamento e o ensino multimodal são tijolos nessa construção. Que possamos, cada vez mais, abrir mão das “torres de marfim” para construir um chão de sala de aula onde cada cidadão brasileiro, autista ou não, possa se sentir parte ativa da construção do conhecimento científico.
Professor Doutor em Ensino de Ciências (IFRJ)
Docente do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (EBTT) – IFRJ Campus Pinheiral
Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências (IFRJ)
Pai do Antônio – autista não verbal, cujo nome é uma homenagem a Antoine Lavoisier. Sonhei que ele herdaria desse grande químico a paixão pela ciência. O diagnóstico de autismo não verbal trouxe frustração, mas o PELP-TEA veio como restaurador da esperança. Hoje, ensino Biologia carregando a lei da conservação: nada se perde, tudo se transforma – inclusive sonhos.